“Em dramaturgia só existe uma lei: não existem leis.” Doc Comparato, Da Criação ao Roteiro, pg. 23.
Você decidiu levar a sério a brincadeira de criar histórias.
A parte ruim é que tá tudo peba. Você nota que todos os seus personagens, médico, policial, estudante, feirante, falam do mesmo jeito. A sua trama (ela sequer existe?) consiste em momentos interessantes que você pensou no começo remendados a um miolo intensamente insosso. E o pior de tudo: antes de chegar na metade, sua história desmorona sobre sua própria complexidade. Virou uma maçaroca frustrante e você decide jogar tudo fora e começar de novo. Porém, esse ciclo se repete e você não consegue identificar muito bem o motivo.
A parte boa é que, pra todos esses problemas há (várias!) soluções.
Olá! Sou Laureano. Comecei a escrever histórias em 2006, mas só em 2016 meus estudos se tornaram sérios, com a cadeira de roteiro que paguei no curso de Rádio, TV e WEB, na UFPB. Desde então não parei de estudar e produzir histórias. E agora, em 2026, tô abrindo toda essa década de estudos, seguida de uma década de frustrações parecidas com o cenário que desenhei no começo, num projeto chamado NarrATO.
O NarrATO é a minha obra mais recente, idealizada ainda em 2016, quando comecei a estudar seriamente narratologia. Entre trancos, barrancos, socos, solavancos, vesgo e meio manco, cá estou finalmente apresentando esse formato que há muito deveria ter visto a luz do dia. O NarrATO se materializará em vários formatos. O curso completo, com 10 módulos, ainda está no forno. Como módulo de conclusão de curso, virá o laboratório de narratologia, a melhor parte do curso; onde alunos aprenderão a construir colaborativamente como em salas de roteiristas. Nesse formato didático clássico, o NarrATO já tá pleiteando financiamento via editais desde o ano passado e será vendido em vitrines anunciadas muito em breve. Mas até esse financiamento cair pra disponibilizar o curso completo de graça (ou a versão freemium do curso ficar disponível nessas vitrines, o que rolar primeiro), o canal do YouTube estará ativo, trazendo conteúdos avulsos sobre a dor e a delícia que é criar mundos, mentes e mentiras que o público adora. E antes disso, como a primeira casa do NarrATO, os roteiros desses vídeos do canal aparecerão aqui, no FLUXO. Sendo muito bem votado, o NarrATO foi priorizado na esteira da Poligonal e como mencionei na postagem de anúncio, a voz do povo é a dos meus.
Porém, já que estamos acanhados (justo, ainda estamos na etapa de nos conhecer, temos que nos sacar antes de rolar confiança, sim?) tenho que aproveitar e, antes de qualquer coisa, deixar bem claro o que o NarrATO não é.
O NarrATO não é uma poção mágica.
“Uma regra diz ‘você tem de fazer isso dessa maneira’. Um princípio diz ‘isso funciona… e vem funcionando desde o início dos tempos’. A diferença é crucial. Forma não quer dizer ‘fórmula’. Não há receitas para escrever histórias que garantam que seu bolo vai crescer. A estória é rica demais em mistério, complexidade e flexibilidade para ser reduzida a uma fórmula. Preferivelmente, um escritor deve entender a forma da estória. Isso é inevitável”. Robert McKee, STORY pgs. 17~33
A galera do copywriting (e do SEO, principalmente) sabe bem. É só você pesquisar “o segredo de” junto a qualquer outro termo que vai brotar gurus com fórmulas mágicas até do bueiro. O problema, veja só, não são os gurus, mas quem procura por soluções prontas. Escrever não é nada fácil. Ou até é, escrever bem é que demanda estudo e muitas, muitas palavras ruins pra dos escombros começar a emergir as boas. O NarrATO não pretende pegar na sua mão e te dizer o que fazer. Meu objetivo é te metralhar de informação e VOCÊ decidir o que funciona pra sua história. É perfeitamente plausível você não acatar nada, ou, caso faça sentido, incorporar tudo. O que acho provável é que você pince algumas coisas que se encaixam com sua premissa e descarte o que não lhe serve. Mas o que invariavelmente deve acontecer se tua vontade de melhorar na narratologia é genuína, é você conhecer o máximo de formas e estruturas do ofício de criar histórias que conseguir, pra saber o que te serve ou não. É aquela máxima dos circuitos criativos: “é necessário conhecer as regras se quiser quebrá-las”. Não é diferente na narratologia. Quanto mais seu repertório se torna robusto, mais elaboradas suas narrativas ficarão. Isso vai acontecer naturalmente. Não se trata de seguir fórmulas ou esperar que exista uma verdade absoluta que funcionará 100% das vezes. Isso não faz sentido. Porém, quando você domina as formas e entende os vários métodos possíveis pra atingir a história que está na sua cabeça, o caminho se torna mais seguro e consideravelmente mais satisfatório.
Como a frase do Doc Comparato que abre esse texto, não existem leis ou fórmulas mágicas, mas existem ferramentas e são essas ferramentas que traremos aqui, a fim de enriquecer seu leque de possibilidades na hora de produzir histórias.
O NarrATO não é sobre escrever bem (gramaticamente).
Escrever um roteiro é muito mais do que escrever. Em todo o caso, é escrever de outra maneira. [...] 'O romancista escreve, enquanto o roteirista trama, narra e descreve' Jean-Claude Carrière citado por Doc Comparato, Da Criação ao Roteiro, pg. 28.
Sei que isso pode parecer contraintuitivo, mas é bom discernir nosso direcionamento pra evitar frustrações e entender a proposta do NarrATO. Por mais que uma boa história floresça de um robusto léxico, não está em nossas prioridades como te ensinar a escrever gramaticalmente melhor. Nosso foco aqui é a narratologia, arcos de personagens, arquitetura de tramas, ação verbal. Pra evitar que o escopo fique amplo demais (comecei esse texto abordando exatamente esse erro) limitaremos os temas do narrato estritamente às técnicas de construções de histórias. Porém, como essas duas coisas estão intimamente interligadas, esperamos que você dê a mesma importância ao rigor da norma linguística que dá ao rigor da curva dramática. Não seremos fiscais de crase, mas entenda: a gramática é a manutenção da estrada, enquanto a narratologia é o mapa da viagem. Se a estrada está cheia de buracos, erros que travam a leitura, ninguém aprecia a paisagem da sua trama.
Escrever bem não é só domínio gramatical; é sobre ritmo e estratégia na liberação de informações. Um exemplo rápido: priorizar a ação e o que tem mais impacto (sujeitos cometendo verbos) para o final das frases ajuda a manter a atenção do leitor. Do contrário, ele sente que tudo o que vem após o “clímax” da sentença é apenas encheção de linguiça.
Ei! Isso já é uma dica, e o NarrATO não é sobre isso! Mas ilustro aqui que essas microdecisões de escrita são tão fundamentais quanto sua construção de mundos e arcos de personagens. O NarrATO não vai focar nesses pormenores, mas partirá do pressuposto de que você está estudando isso paralelamente, ok?
Nosso foco aqui é a arquitetura do invisível. É sobre como você manipula a expectativa do público, como molda o caráter de um personagem e como implode uma cena no momento certo. Se você quer aprender onde colocar a vírgula, o Pasquale resolve, e convenhamos, existem muito mais fontes de ensino de linguística e gramática do que de narratologia.
Se o seu objetivo é entender por que seu protagonista é um insosso que ninguém suporta e seu mundo tem cores desbotadas, o NarrATO é o seu lugar.
O NarrATO não é um atalho.
“Aprendemos mais lendo muito e escrevendo muito, e as lições mais valiosas são aquelas que ensinamos a nós mesmos. São lições que quase sempre nos ocorrem quando a porta do escritório está fechada. As discussões levantadas em cursos de escrita podem ser muito divertidas e intelectualmente estimulantes, mas costumam ficar bem distantes do laborioso ofício de escrever” Stephen King, Sobre a Escrita pg. 131.
Comentei antes que muita coisa ruim tem de ser escrita até que as coisas boas comecem a brotar, mas isso é tão importante que precisa de mais tempo pra ser enfatizado. No próprio Fluxo mencionei sobre o Abismo do Ira e como faz parte do processo de inúmeros criadores passar por um longo período, não raro ANOS desgostosos com o que produzem. Sinceramente eu mesmo ainda tô nesse ciclo, apesar de produzir audiovisual por mais de uma década. Como o Ira muito bem pontua na sua aula de escrita criativa, isso é normal. Faz parte. O importante é continuar produzindo até que as coisas comecem a fazer sentido e o abismo entre o que você sabe que é foda e o que você consegue fazer comece a diminuir. O que não vai acontecer é você melhorar sem ter material pra saber como melhorar. Não existem atalhos pra se escrever melhor. Você só vai melhorar persistindo. Além disso, pode ter certeza que é uma cilada ficar só no looping infinito de estudos sem praticar. Estudar é o que vai lhe munir de ferramentas, mas você não vai melhorar deixando as ferramentas juntarem poeira. Tire-as da gaveta e coloque-as em ação. Não faça como eu que passei mais de uma década estudando sobre o Mundo das Trevas e não mestrou uma única mesa de Vampiro: A Máscara. Não dá pra saber se sou um bom mestre se só fiz acumular conhecimento acerca dos vários livros de RPG desse mundo e não coloquei os dados pra rolar. Esse looping infinito de estudos sem prática aplicada pode ser só uma forma de autossabotagem disfarçada. Oras, o próprio NarrATO é vítima desse perfeccionismo paralisante mequetrefe e por isso demorou uma década pra ser lançado após muita hesitação e insegurança. Não cometa o mesmo erro que eu, role os dados. Escreva. Será péssimo no começo, sim, não tenha dúvidas. Mas você tem que começar de alguma forma. Nem Guilherme Xeiquispir, nem Ariano Suassuna nasceram sabendo de tudo.
Outra coisa muito importante que não é exatamente sobre evitar atalhos, mas tem a ver com esses loopings infinitos que criativos normalmente caem é o processo de revisão simultânea à escrita. A cada frase escrita você volta e revisa tudo e esse processo destrói completamente o estado de fluxo precioso que você precisa pra construir criativamente. Não caia nessa cilada também. Um termo na construção de roteiros que aprendi ainda na universidade é o de vomit draft. Acho esse termo nojento e perfeito, inclusive se encaixando com o que falei antes sobre a primeira versão ser horrível. Sempre é. O importante é você colocar no papel (ou no seu processador de textos, deu pra entender, né) o mais rápido possível o começo, meio e fim da sua ideia. O primeiro fluxo de ideias é como um vômito, mesmo. Será horrível e fedorento, mas pelo menos você terá algo. Você não pode trabalhar com o que só tá na sua cabeça, você trabalha com o que tem materializado. É com esse rascunho “vomitado” que você começa a ter ideia de ritmo, de tom e quais são os pontos da história que precisam de atenção de imediato.
Uma anedota que adoro é que o processo do primeiro livro escrito pelo Stephen King foi tão excruciante e ele odiou tanto o que escreveu que jogou fora ainda nas primeiras páginas e fingiu que nada aconteceu. Foi Tabitha, sua esposa, que resgatou as páginas do lixo e o convenceu de continuar. Essa é a história de como Carrie, A Estranha, veio ao plano material.
Você conseguiu passar da paralisia e finalmente escreveu seu rascunho vomitado? Poxa, que bom. Mas é agora que o trabalho começa de verdade. É tido como verdade pacificada que o ofício de escrever é 90% reescrever. É precisamente o que Moacyr Scliar diz: “Escrever é Reescrever”. Já o Ernest Hemingway diz que “O único jeito de escrever é reescrever”. A reescrita é parte central da famosa rotina de escrita do King. Inclusive ele e o Sobre A Escrita serão frequentemente citados aqui no NarrATO, por vários motivos. A primeira parte do processo dele é escrever o rascunho vomitado o mais rápido possível. Depois, ele deixa essa primeira versão marinando, pra na hora de reescrever deixar sua visão mais crítica e pronta pra passar a faca no que não tá funcionando.
Porra, usar a expressão do vômito seguido de marinar me revirou o estômago aqui. UGO! Taí algo que pode ser rapado na reescrita. Ou não.
O NarrATO não é o seu caminho até a musa.
“Não me procure para isso. Meu sistema nunca fabricará inspiração. Pode apenas preparar um terreno favorável a ela. Se eu fosse você, deixaria de correr atrás desse fantasma, a inspiração. Deixe-o por conta daquela fada miraculosa, a natureza, e dedique-se àquilo que está nos domínios do controle humano consciente”. Constantin Stanislavski, A Preparação do Ator, pg. 365.
Já que tô me expondo falando antes do meu perfeccionismo paralisante, o qual é meu defeito criativo que mais odeio, tenho que compartilhar o que por muito tempo foi o meu segundo defeito criativo, mas que felizmente consegui me desvencilhar. Porém, por saber que esse problema atinge boa parte dos criadores, vale a pena abordá-lo também.
Camaradas, vamos ser francos: não existe isso de ficar esperando bater a inspiração. Estalos de ideias boas até acontecem, mas elas não vão se abater sobre você como um raio enquanto você está esperando. Estamos em 2026 e nessa altura do campeonato ainda vejo gente falando de criatividade com um certo misticismo. Não alimente essa lombra errada. Exceto caso você seja aquela estirpe rara de artistas bem nascidos, todo criador é um operário. O slogan do NarrATO remete a construção civil não por acaso. A criação de histórias é um ofício e é necessário esforço contínuo, com “inspiração” ou não. Ótimas ideias podem brotar “do nada”, mas você precisa ter um plano pros dias áridos. Não digo pra fazer a “maromba de escrita” do King que consiste em escrever 6 páginas todo santo dia, e nos não-santo também, ele escreve inclusive nos feriados e finais de semana. Se conseguir 2 por dia me sinto um vencedor. Seu processo não precisa ser tão brutal quanto o dele, mas não pode ser totalmente solto também. O importante é você conseguir um equilíbrio entre estudos, prática e produção, de preferência sempre com um projeto em mente pra você ter onde aplicar. Inclusive se você resolver acompanhar o NarrATO vou partir do pressuposto que você tem uma ideia debaixo do sovaco e tá usando o NarrATO como caixa de ferramentas, ok? Nossa ideia central é essa.
Não vamos te mostrar o caminho até a musa, mas a ideia é te dar as ferramentas e alguns insumos pra você construir a casa e recebê-la quando ela bater à porta.
O ideal é você ter um projetinho principal, criar uma rotina contínua de produção semanal (no mínimo) e criar metas coerentes com o que você se sente confortável. Inclua estudos no meio disso, mas não deixe eles tomarem mais tempo do que a prática. A realidade é diferente pra cada pessoa, claro, mas pra mim o que mais faz sentido é 50% do tempo estudo e ampliação de horizontes e 50% pra prática e aplicação do que estudei num projeto sólido. Sua realidade pode ser diferente, mas o importante é equilibrar todos esses pratos, porque, no frigir dos ovos, tudo se retroalimenta e impacta o produto final.
Acho que ficou nítido o que o NarrATO não é, mas falei que esse texto aqui é pra gente se conhecer e até então essa foi uma via de mão única. Agora é hora d’eu saber de você que embarcou no nosso caiaque. Existem principalmente três tipos de escritores que o NarrATO mencionará com frequência. É claro que a ideia não é encapsular ninguém num conceito hermético, muito menos criticar ou algo do tipo, o intuito de identificarmos esses tipos de escritores é o mesmo que o de identificar as formas de produção de histórias. Facilita os estudos e identificando conceitos fica mais fácil saber onde nos encaixamos e o que funciona pra nós. Dito isto, nós identificamos os tipos de escritores como Arquitetos, Arqueólogos e Artesãos. Estamos curiosíssimos pra saber com qual você se identifica mais.
Arquitetos — Os planejadores
A filosofia dos arquitetos é só começar a escrever após terem esquematizado absolutamente todos os parâmetros da história e um extenso mergulho de todos os personagens, às vezes até os que não aparecem diretamente. Eles preferem desenhar toda a planta baixa e calcular cada material que vai ser usado na construção, normalmente resultando em histórias robustas e sólidas. Confesso que me identifico mais com os arquitetos; E o problema de ver uma história que desmoronou sobre sua própria complexidade que mencionei no começo foi algo que vivi frequentemente nos meus textos quando adolescente. Ao descobrir que existiam várias ferramentas que me ajudariam a evitar que minhas histórias sempre terminassem em um descarrilamento de trem narrativo, me apaixonei pela narratologia e passei a catalogar o máximo de métodos de construção de mundos, arcos de personagens e tramas pra nunca mais passar pela frustração de construir histórias complexas demais pra manutenir de novo. Confesso que escrever sobre a segurança de estruturas firme é deveras confortável. Arquitetar a história é jogar safe. É melhor resolver inconsistências, problemas de ritmo e furos lógicos ainda no rascunho do que ter de lidar com eles após 420 páginas.
As vantagens de ser um arquiteto são inúmeras. Primeiro que se você aplica uma estrutura e já define mais ou menos qual seu incidente incitante, onde se iniciará seu desenvolvimento e como será sua reviravolta final, você escreve muito mais rápido. Isso é natural: você se desloca muito mais rápido tendo um mapa em mãos. Não raro os escritores de novelas são Arquitetos, como o Walcyr Carrasco e sua precisão e produtividade industriais. Outra vantagem de ser arquiteto é a consistência de prenúncios (o que os gringos chamam de foreshadowing). Se você sabe bem onde vai chegar e o percurso que vai trilhar, é muito mais fácil soltar pistas pelo caminho, deixando a chegada bem satisfatória. Há também quem sinta que arquitetos têm um controle mais amarrado de seus ritmos, visto que fica mais nítida a curva de tensão de suas histórias, facilitando a calibragem de picos de ação. Acho que faz sentido, mas, por outro lado, ao tratar a história como blocos dramáticos, tive dificuldade em lidar com as emendas entre um bloco e outro em Termos e Condições, uma das minhas primeiras histórias após ter começado a sério os estudos narratológicos. Mesmo tendo estruturado a pulso firme, sinto que nela o ritmo acelera de supetão, então como você controla a estrutura e a preenche é mais definitivo quanto ao pacing (como gringos chamam ritmo).
E já que comecei a falar sobre defeitos, vale a pena destacar os perigos de ser um arquiteto. O primeiro e mais óbvio perigo de você usar estruturas rígidas demais é fabricar uma narrativa engessada. Ao se impor o peso de estruturas que pode simplesmente não combinar com seu jeito de escrever, com a temática apresentada ou até com a espontaneidade de alguns personagens, a história pode se tornar algo tão sutil e cheia de nuances quanto uma tijolada na cara. Outra falha clássica dos arquitetos é a que ostensivamente descrevi aqui: eles torram tanto tempo detalhando minuciosamente seus mundos e as lógicas que os regem que na hora de escrever a história de fato não suportam mais aqueles cenários e partem pra outro, só pra repetir o mesmo erro. O escritor e professor de narratologia Brandon Sanderson, que também será figurinha carimbada aqui no NarrATO, cristalizou essa péssima prática com termo “Síndrome do Construtor de Mundos” (“worldbuilders’ disease”). Queria que esse erro crasso fosse exclusivo de iniciantes, mas já perdi a conta de quantas vezes vi game designers com amplo portifólio caírem nesse poço. Em desenvolvimento ele é primo do scope creep, o ciclo de adições ao escopo de um jogo que não contribuem com o todo e, pelo contrário, atrapalham a coesão do mundo. Para muitos criadores a ideia de fabricar mundos e povoá-los é muito atraente, mas se não tiver uma história que corte verticalmente a visão do leitor / plateia / expectador / jogador, seu mundo cheio de frufru não me serve de nada!

Célebres arquitetos são o Walcyr Carrasco já mencionado aqui, o Doc Comparato que abriu esse texto (e carinhosamente tenho como patrono do NarrATO) e ensina em “Da Criação ao Roteiro” que o processo nasce na divisão das etapas da ideia, argumento e roteiro. O Bráulio Mantovani que roteirizou Cidade de Deus é um ávido arquiteto também, apesar de ter um processo inicial consideravelmente caótico. O Brandon Sanderson que também citei antes se considera um arquiteto, mas ele tem um tempero especial que vou abordar já, já. Outro nome pra arquiteto na gringa é “outliner” (mas “plotter” é mais popular) e a K. M. Weiland tem um mói de livros ensinando diversas formas de esquematizar histórias (outlining) antes de começar a escrever cena por cena.
Arqueólogos — Os intuitivos
Para os arqueólogos, a filosofia da escrita é uma aventura de descoberta em tempo real. Ele não quer saber o final no começo, o escritor arqueólogo quer ser pego de surpresa pela própria escrita. É como se a história já estivesse lá e a escrita é o ato de revelar o que há debaixo dos panos. Como arquiteto sinto um profundo terror cósmico só de imaginar um processo onde não se sabe como começar nem onde dará, mas o fato é que diversos renomados escritores seguem esse método orgânico e flexível. Só que se você não foca na estrutura e não tem um esquema, o foco automaticamente pula pro ambiente que deve ser extremamente vivo e cheio de estímulos e o cerne da história se tornam os personagens que são os motores da narrativa. Nesse método, eles devem ser tão vívidos que, de fato, a história basicamente se desenha sozinha, o escritor apenas vai empurrando as personagens pelas situações e respeita o que é mais lógico e plausível para cada uma de suas personas. A arqueologia de escrita foca no estado de fluxo de quem escreve e segue como o curso de um rio em sua primeira sangria. O resultado são histórias com uma fluidez mais natural, acontecimentos truncados mais verossímeis com a realidade e reviravoltas genuinamente inesperadas.
Das vantagens das histórias arqueológicas são um frescor e espontaneidade incomparáveis. Por não seguirem a risca estruturas pré-estabelecidas, elas tendem a ser menos mecânicas. Outra natural vantagem é a humanidade de seus personagens que geralmente são mais tridimensionais e possuem vozes mais fortes, pois são eles que direcionam a narrativa e são “ouvidos” pelos escritores, ao invés de só cumprirem um gráfico de tensão dramática e beats de cenas. Arqueólogos também pontuam que esse método é bem mais divertido, como se eles estivessem lendo o livro enquanto escrevem.
Eu continuo sentindo terror cósmico.
Por outro lado, os perigos mais óbvios comecei esse texto falando sobre. São os arqueólogos que mais sofrem ao chegar num segundo ato seguido de um bloqueio criativo esmagador. Sem um mapa, não é raro descobrir que cavaram um buraco que não conseguem sair. Também não é raro acontecer exatamente o que mencionei fazer repetidas vezes na adolescência: começar adicionando aspectos e incrementando sem parar até ser soterrado pela complexidade da história. Às vezes fica tão fácil perder o rumo que arqueólogos abandonam projetos pela metade por não conseguirem reamarrar o fio da meada. Já nos cenários mais otimistas, o arqueólogo consegue abrir o caminho até o ponto de chegada, mas ao olhar pra trás a trilha está completamente disforme e tortuosa - causando uma incoerência estrutural que faz editores entrarem em combustão espontânea. É normal o arqueólogo mudar de ideia no meio do caminho e quem começou como vilão carioca de olhos verdes alguns capítulos depois vira o herói mineiro de olhos castanhos. A carga da etapa de revisão é muito maior quando você é arqueólogo. Pode ser uma vantagem a diversão da escrita, mas com certeza seu revisor não vai achar divertido aparar todas as arestas, achatar os calombos e transformar a macro-narrativa em uma experiência coesa e satisfatória. Dito isto, vale a pena frisar que o arqueólogo não se trata de um escritor desorganizado, ele é mais como um “desbravador corajoso” que desloca a maioria do foco de atenção da estrutura macro para personagens vívidos e tramas flexíveis.
Clarice Lispector é a primeira escritora brasileira que me vem em mente ao pensar em escritores arqueólogos. Em várias entrevistas ela compartilhou que seu processo consistia em escrever vários fragmentos de histórias sem saber onde iam parar ou como se conectariam. Outros dois arqueólogos célebres são o Stephen King e o George R. R. Martin e sobre esses dois quero salientar algumas coisinhas. Adoro ambos, mas adoro ainda mais como os dois podem ser arqueólogos, usando processos totalmente diferentes. Comentei aqui sobre a rotina de 6 páginas do King. Ele considera o hábito dos arquitetos de saber do final do que escreve entediante. Já o George R. R. Martin foi quem cunhou o termo “jardineiro” para o que estamos chamando aqui de arqueólogo. Seu método é plantar uma semente e estimular uma colheita farta. Talvez você tenha visto nos feeds da vida um trecho de um bate-papo deles onde o Martin pergunta “Como caceta cê escreve tão rápido?” notando que, enquanto ele demora pra fazer 3 capítulos, o King entrega 3 livros completos, se brincar já revisados. Isso sinaliza que mesmo escolhendo o caminho intuitivo, existem diversas formas de abordar o ofício da criação de histórias.
Não se sente nem tão rígido quanto um Arquiteto, nem tão caótico quanto um Arqueólogo? Talvez seu lugar seja na bancada de trabalho dos Artesãos.
Artesãos — Os pragmáticos
Se o Arquiteto precisa da planta antes do primeiro tijolo e o Arqueólogo espera o fóssil aparecer sob a areia, o Artesão é aquele que entende a escrita como um processo de desbaste e ajuste contínuo. Para eles, a história não é uma revelação mística, nem um cálculo de engenharia frio; é um objeto de utilidade que ganha forma na oficina. O Artesão equilibra o planejamento estratégico com a intuição do momento, tratando cada capítulo como uma peça que precisa ser lixada até que o encaixe seja perfeito. É o perfil que mais se beneficia do equilíbrio de 50% estudo e 50% prática que mencionei anteriormente.
As vantagens do Artesão residem na sua adaptabilidade. Diferente do Arquiteto, que pode entrar em crise se a planta baixa apresentar um erro de cálculo no meio da obra, o Artesão tem a frieza de mudar o material ou o ângulo da “escultura” sem perder o sono. Eles possuem um controle técnico invejável sobre o ritmo e a economia de palavras, ao enxergarem a reescrita não como um fardo, mas como a etapa onde a obra realmente nasce. São mestres em identificar o que é “gordura” narrativa e passar a faca com a precisão de quem corta couro.
Porém, o perigo de ser um Artesão é cair no perfeccionismo técnico. Focando excessivamente na lapidação de cada cena ou parágrafo, o escritor pode perder a visão do todo ou, pior, retirar a espontaneidade da história em favor de uma técnica impecável, mas fria. É o risco de produzir uma obra tecnicamente perfeita, mas que não pulsa, pois cada ranhura de humanidade foi lixada no processo. Além disso, a obsessão pelo ajuste pode levar ao looping infinito de revisões que mencionei anteriormente.
Em resumo, o artesão pode tanto ter as qualidades do arquiteto e do arqueólogo, quanto seus defeitos.
No Brasil, um exemplo clássico de Artesão foi Graciliano Ramos. Ele era conhecido por “dar caça às palavras”, eliminando adjetivos e polindo seu texto até que sobrasse apenas o osso, a essência bruta da narrativa. Outro mestre desse ofício é Cristóvão Tezza, que frequentemente descreve seu processo como um embate físico com a forma, onde a estrutura e a linguagem são moldadas em conjunto, golpe a golpe. Lembra que lá no final da descrição dos Arquitetos mencionei que o Brandon Sanderson se considera Arquiteto, mas que ‘tem um tempero que eu vou falar já, já?’. Pois bem, esse tempero é que apesar de esquematizar suas histórias à priori, ele mantém um certo nível de flexibilidade e normalmente acaba achando outros rumos dramáticos enquanto escreve. Ou seja, ele pode até se considerar um Arquiteto, mas, na prática, é um Artesão de mão cheia.
Na verdade, a meu ver, quem ultrapassa a marca de ser escritor para ser um autor é invariavelmente um Artesão. A experiência de produzir histórias em lotes nos faz entender as estruturas de um Arquiteto naturalmente, ao mesmo tempo que seguimos como um curso de um rio que respeita até certo ponto o desenho geográfico que percorre, até encontrar um acidente narrativo que o faz mudar de curso, de forma lógica. O ideal é você ter um plano pra não se perder e limitar as infinitas possibilidades que sua história pode escolher, mas esse plano não pode servir como uma jaula que impede sua criatividade de viver em liberdade e plenitude.
Qual a sua ferramenta?
Posso me considerar um Arquiteto, mas a ideia do NarrATO é te munir de ferramentas para que você seja um Artesão que não só tem ciência do máximo de ferramentas possíveis, mas que sabe que dependendo da ocasião (ou seja, tipo e proposta da história) você pode usar um formão, ou uma britadeira.
Independentemente de você ser um Arquiteto detalhista, um Arqueólogo corajoso ou um Artesão deliberativo, o objetivo do NarrATO é o mesmo: te ajudar a tirar a história da cabeça e concretizá-la no mundo. Nosso intuito não é te rotular, mas te ajudar a identificar as características que você já tem e te vestir com um cinto de utilidades que você vai precisar quando a estrutura balançar ou quando você se perder no deserto da página em branco. Quem vai escolher quais ferramentas utilizar e quando é você. E eu falo do fundo do coração, tô ansiosíssimo pra ver o que tu tá construindo. Bora junto?
O NarrATO é uma obra há uma década em produção (e contando!).
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